Uma
dor invisível!
Nada sentia a não ser uma
coisa no corpo. Não um incómodo, uma dor, uma comichão, um peso, um aperto, uma
picada. Estava sentada no puff de revista aberta nas pernas e nisto, sem
contar, aquela dor nas pernas. Desta vez! Palpou-a, esfregou-a, tentou avaliá-la
mas era difícil porque não era cá fora, lá dentro. Na fé que se desvaneceria,
levantou-se, deu uns passos à sorte pela sala, ligou a tv, escutou com atenção,
bebeu água quando esses passos ao acaso a conduziram à cozinha. Parou, a ver se
a coisa desaparecia, mas teimosa persistia. Na casa de banho, no meio de tanta
oferta na farmácia ambulante encontrara uma pomada para o reumático. Já a sua
avozinha dizia beldades da mesma, como se de uma bênção se tratasse. Se fizera
bem a ela, porque não faria à neta? Pensava ela, crente e de absoluta certeza.
Sentou-se no sofá outra vez, num gesto vai e bem espalhava com convicção aquela
dor, aquela que não se via mas sentia-se de forma acutilante e inequívoca.
Inclinou-se para trás e não saía. Torceu-se para a direita e para a esquerda e
nada. Ir ao hospital, tomar analgésico, telefonar a uma amiga… (Ir ao
hospital?) Que diria na triagem? A dor que dói mas não se vê, nem consegue
definir de tão abstracta e abrangente que é. Afigurou-se-lhe o ridículo, não
teve coragem. Na esperança de que confortaria reclinou-se no cadeirão, aliás
desconfortável, esperou um quarto de hora contado pelo relógio, cada vez mais
aflita, resolvendo: “Não vou pensar mais nisto!” Claro que não deixou de pensar
nisso, que ao fim e ao cabo permanecia inalterável. Encolheu as pernas
novamente, e a coisa sempre tenaz, tranquila, presente. A que horas acabaria
aquela coisa? Mais umas horas e acabara-se o tormento, adormecera mesmo com a
dor a que se habituara.

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