quarta-feira, 25 de julho de 2012




Fugia desesperadamente dos maus tratos, da violência física e emocional. Procurava incessantemente o amor, a tranquilidade que sabia encontrava-se algures num local distante mas atingível. Queria ser amada, mas amava de forma errada, amava sem olhar como, nem a quem. Na esperança talvez de assim ser retribuída com certeza, procurava independência, paz, e algo mais não sei bem o quê. Deixei tudo para trás, sabia-o, era uma nova etapa de coisas novas e de total controlo sobre as mesmas, pensava-o. Parti sem dúvidas nem temores com somente a roupa do corpo e na bolsa muita fé e esperança de uma vida melhor. Atirei-me à vida, do corpo me saía o suor do trabalho. Era o começo. Desse suor poucos frutos surgiram. Era um correr em falso, um pedalar sem sair do sítio. Mas do fundo do meu vulcão interior a força vencia toda a injustiça social e variadas contrariedades. Afinal de contas, não era assim tão desconhecido para mim esta situação. Uma casinha pequena e humilde, eu, e o que viria a ser o pesadelo, o carimbo do mal. Alberguei o demónio de braços abertos. Arrisco dizer que a imposição do modelo de vida a dois era o do poder absoluto, marca o ponto inaugural de uma relação violenta. Hoje penso, e não foi por falta de aviso, foi sim por uma cegueira consciente. Os amigos falavam abertamente acerca da personalidade e do quão conflituoso ele era enquanto pessoa. Mas eu queria ser amada, que importa isso? Eu sou capaz de o mudar, pensava eu com firmeza e totalmente convicta disso. Porém, queria dar uma nova oportunidade ao amor. No entanto, tinha vícios que eu jamais gostei, saía muito à noite, faltava frequentemente ao trabalho sem justificação plausível. Não havia estudado, nem tencionava voltar a fazê-lo. Tinha como profissão serralheiro, e muito pouca apetência para tal. Três anos de idade nos separavam, eu com 16 e ele 19. De início fora sempre meigo, atento, preocupado e até politicamente correcto. Já vivíamos juntos quando achei altura indicada para lhe exigir determinadas mudanças. Exigi que corrigisse a sua postura, pois ainda enquanto namorados deixei bem claro que não era miúda de noitadas, de loucuras excêntricas. Era divertida extrovertida mas nunca louca ou inconsequente. Viria a sê-lo anos mais tarde, sendo um rapaz mimado, sem regras nem responsabilidades. Para eu não perder o grande amor da vida possivelmente (achava-o eu) dei lhe vezes sem conta o benefício da dúvida desculpando até demasiadas vezes as atitudes e comportamentos irracionais. Afinal de contas, havia os seus momentos bons.

  Certo dia fim-de-semana, uma sexta-feira mais concretamente, saímos juntamente com outro casal amigo. Na verdade amigos dele, para mim, não eram mais do que desconhecidos. Após a saída do bar resolvemos ir conviver junto à praia. Brincadeira para aqui, brincadeira para ali, o amigo dele decidiu pegar em mim no colo sem me dar tempo de reacção contraditória. Fora de facto uma atitude fora do contexto. Nada que me levasse a pensar que teria consequências tão dramáticas, como teve. Assim que chegamos a casa, a primeira coisa que senti ao entrar na porta foi um estalo de tal ordem que ao início nem doeu, só ardia de quente. Depois sim, doía! Sem me ser dada a possibilidade de retorquir ou recriminar, levei um pontapé, como quem pontapeia uma bola sem dó nem piedade. De seguida, as perguntas que me fizera esclareceram qualquer tipo de dúvida que restasse no meu consciente. Na perspectiva cega de raiva, partiu do princípio que eu mesma causei o comportamento por parte do colega, e pior, terei gostado. Daqui para a frente, é sempre a piorar.. e assim foi! Tantas foram as vezes que pensei: “Um dia terei de escolher, ou morro eu, ou tu”!

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