quinta-feira, 4 de outubro de 2012

"Coincidências"

Ela sentara-se naquele banco sujo pela natureza, com toda a força que o seu corpo exercera de exaustão. Sacudiu o cabelo, olhou em redor com aquela não desconhecida sensação de que alguém a observava. O verde intenso do jardim, da relva fresca e vivaça a confundiria com uma t-shirt da mesma cor, apenas com um vermelho sangue. Aquele vermelho sangue a ilucidara do que na verdade se...
tratava.
Sentado numas calças ganga azul céu, já esverdeadas do verde relva, ora com os olhos fixados no nada, ora no seu telemóvel grande e volumoso que de quando em quando se fazia ouvir. Os olhares tocam-se, um trovão fez-se sentir,será temporal? Mas o céu estava tao azul quanto as sua calças, no entanto tão verde quanto a relva que os circundava. Só eles entenderam, e não mais se largaram. Grunhados, agarraram as mãos, a vida deles nunca mais será a mesma! Acreditam em coincidências?
"A Primeira Vez"

A primeira vez nada tem de mais espetacular a não ser o facto de ser a primeira. O primeiro passo, o primeiro beijo, o primeiro namoro, o primeiro desgosto..uma infinidade de situações poder-se-iam mencionar. O mérito dado à primeira vez é tão válido quanto dado à última. Afinal, porque a primeira é tão marcante, fascinante ou devastadora na nossa memória? A primeira porque não se repete com a mesma intensidade e a última porque queremos que não mais se repita. A primeira vez!
"Stay Stronger"
Dás por ti a olhares o espelho, no teu íntimo és tu, não és tu, és o que fazem de ti. Perguntas: - " Quem sou eu?"
Mais um dia na tua vida repleto de dor e humilhação, sentes-te um Zombie fora da moldura. Raiva, desespero e muita desorientação e a única que anseias é fugir mas não foges, desejas gritar mas mantens-te calado, suplicas que te deixem, mantens-te visível. Fora da mol...
dura questionas quem és tu, o que fazes ali e porquê contigo.
Manhã cedo e sais temendo levar na face escrito o medo, vidrado nos olhos a aflição. Achas-te fraco, forte, mas não te sentes tu. Invadem-te novamente e pensas... Stay Stronger.... and you are.. more stronger than everybody. Stay Stronger pela primeira vez.. e desta vez para sempre.
"Eu e os mundos diferentes" ...

Sinto-me bem entre mundos diferentes porque, ao contrário do que julgam, sou tolerante. Dá-me gozo entender vários mundos. Recostada naquela cadeira dura, fria e a cambalear, esperava ansiosamente pela voz autoritária que me chamasse. No vão daquela espera interminável, no fundo, sabia-o. Os vários sons, zumbidos, murmúrios ocupavam a minha atenção e pensamento. Ai...
se eu exteriorizasse todos os meus pensamentos! Ajudando assim generosamente o tempo a passar. Neste momento sempre tão tranquilo, quase de introspecção. A TV servia-se do sensacionalismo com o objetivo de captar as atenções e conseguia-o, afinal de contas a vida e os podres dos outros são sempre mais interessantes que os nossos. Uma voz estridente soava no meio do fascínio pelo tema, aborrecia pelos agudos. As rececionistas nas suas comuns trocas de galhardetes, pormenores tão pessoais quanto dispensáveis. Pessoas na sua velhice a resmungar com as dores nos ossos, do clima, da crise. A tal crise, a tal mal fadada crise irritante e recorrente “Isto agora está uma miséria!” Pois, no “tempo deles” é que era bom, era bem melhor de facto. Onde uma sardinha dava, tinha de dar para cinco ou seis pessoas, até as espinhas iam com certeza. Onde as crianças começavam a trabalhar ainda na infância e pré-adolescência, deixando as suas famílias muito cedo e assim irem servir em casas de ricos e manientos. Tempos esses onde a moral era tanta e tão pouca que faziam por engravidar para assim conseguirem fugir aos seus pais alegando maus tratos, (ou seria desculpa)? Como é óbvio não me foi possível vivenciar esses tempos fantásticos, no entanto, apraz-me falar sobre o que é do conhecimento geral, ironicamente referido pelos mesmos experientes agora na fase da velhice, ou segunda infância. Ocorre-me primordiais frases pronunciadas com o cúmulo dos orgulhos: ”No meu tempo as mulheres andavam “debaixo” dos homens, hoje são umas galdérias”. É de ter orgulho? Antes galdéria e livre, do que falsa santa e aprisionada. De falsos moralismos está a nossa sociedade empestada. Será motivo de orgulho, gritarem a alta voz que passavam fome? Como se hoje não houvesse quem soubesse do que se trata passar fome! “No meu tempo as mulheres andavam vestidas decentemente!” Isso sim, bendita decência ou decadência, essa que levava as mulheres vestidas decentemente ao altar grávidas na maioria das vezes. Tão contraditório. Resultado porém, dos namoros à janela, possivelmente. Concluímos então que a decência não está de todo ligada com a moralidade, dignidade e o respeito. Como estas, outras situações idênticas que mancham a geração da perfeição, que por sua vez rotulam a geração à rasca que nada mais é que o fruto da geração das lamentações com a situação atual. Não quero portanto com isto dizer que hoje sim, é perfeito. Nada disso. Saliento sim, que nunca o será, a condição humana não o permite. Há sim lugares para tudo e todos neste mundo imperfeito onde a perfeição é um objetivo inalcançável, e se acumulam demasiados erros humanos que nos tornam miseráveis.
"Uma dor invisível"

Nada sentia a não ser uma coisa no corpo. Não um incómodo, uma dor, uma comichão, um peso, um aperto, uma picada. Estava sentada no puff de revista aberta nas pernas e nisto, sem contar, aquela dor nas pernas. Desta vez! Palpou-a, esfregou-a, tentou avaliá-la mas era difícil porque não era cá fora, lá dentro. Na fé que se desvaneceria, levantou-se, deu uns passos à sorte pela ...
sala, ligou a TV, escutou com atenção, bebeu água quando esses passos ao acaso a conduziram à cozinha. Parou, a ver se a coisa desaparecia, mas teimosa persistia. Na casa de banho, no meio de tanta oferta nafarmácia ambulante encontrara uma pomada para o reumático. Já a sua avozinha dizia beldades da mesma, como se de uma bênção se tratasse. Se fizera bem a ela, porque não faria à neta? Pensava ela, crente e de absoluta certeza. Sentou-se no sofá outra vez, num gesto vai e bem espalhava com convicção aquela dor, aquela que não se via mas sentia-se de forma acutilante e inequívoca. Inclinou-se para trás e não saía. Torceu-se para a direita e para a esquerda e nada. Ir ao hospital, tomar analgésico, telefonar a uma amiga… (Ir ao hospital?) Que diria na triagem? A dor que dói mas não se vê, nem consegue definir de tão abstracta e abrangente que é. Afigurou-se-lhe o ridículo, não teve coragem. Na esperança de que confortaria reclinou-se no cadeirão, aliás desconfortável, esperou um quarto de hora contado pelo relógio, cada vez mais aflita, resolvendo: “Não vou pensar mais nisto!” Claro que não deixou de pensar nisso, que ao fim e ao cabo permanecia inalterável. Encolheu as pernas novamente, e a coisa sempre tenaz, tranquila, presente. A que horas acabaria aquela coisa? Mais umas horas e acabara-se o tormento, adormecera mesmo com a dor a que se habituara.