A tal coisa natural
Se
nos falece o marido, somos viúvas. Se perdemos um filho, somos o quê?
Que nome se dá a um
pai, a uma mãe que perde um filho?
Não existe, porque não
é natural os filhos partirem antes dos pais! É extremamente cruel um filho
perder para o além, um pai ou uma mãe. Mais muito mais cruel ainda é um pai,
uma mãe ver o seu fruto partir, na grande parte das vezes, de forma estúpida e
desumana. A lei da vida, ou da sociedade, para ser mais concreta, direcciona a
morte pela ordem de idade e de gerações. Esta mesma sociedade, que ignora os
velhos e critica os jovens, rotulando até, como geração rasca.
Nascemos, crescemos,
vivemos, e morremos! Nada mais certo e verdadeiro. Todos apregoamos que é a
coisa mais natural da vida, faz parte, é mesmo assim! Então porque é que assim
sendo, morremos por dentro quando a vida “normal” nos tira alguém sem avisar,
sem pedir, sem piedade? Quem morre por dentro, não estava preparado para a
morte, aliás, ninguém está! Quando o desaparecimento é repentino a dor é ainda
maior, não te dá tempo para a despedida, para a adaptação à nova realidade.
Todos dizem que não querem sofrer nem fazer ninguém sofrer, e que então desejam
uma morte rápida e serena. Pois digo-vos, é de muito egoísmo desejar algo
assim. Confesso, desejo uma morte que me de tempo para me despedir, para pedir
desculpa a quem devo, para lembrar que amo a quem amo, e assim partir
tranquila, pois nada ficou por dizer e fazer. Assim como, desta forma, quem me
rodeia terá tempo para viver a morte que se aproxima. Falo naturalmente da
morte, mas tenho um medo de morte dela. Não quero morrer! Não quero! Mas sei
que, nem a tecnologia mais avançada, nem a medicina mais descoberta, me safará
de tal destino. Tento não pensar muito nela, entretanto ela relembra-me todos
os dias que certo dia, virá.
Nada
me prende a este mundo. Família, pais, amigos, e conhecidos. Nenhum destes
me faz ansiar pela vida. Só necessito de um, somente um para me agarrar a vida.
O meu filho, o meu fruto, o meu contributo enquanto humana e mulher. Ninguém
precisa mais de mim do que ele! Por ele recuso-me a partir, quero ver, viver,
reviver, tudo que é dele. Por vezes tento dar o meu melhor a ele, mas não tenho
sucesso, por vezes consigo o que quero mas não o que preciso. Quando se perde
algo e não se pode repor, as lágrimas cansam-me mas não consigo dormir. Luzes
me guiarão pelo caminho da fixação. O que está para a frente só nós sabemos mas
não vemos. Serei um dia uma estrelinha que brilhará para ele, brilhará
iluminando o caminho e guiando o seu destino. Olharei sempre por ti! Se aquela
força maior de que todos falam mas ninguém viu te levar de mim, leva uma parte
de mim para que sintas sempre a presença da mãe! Amo-te mais que tudo filho… !
Quando leres isto, provavelmente já cá não estarei… olhar-te-ei lá do alto!

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