quarta-feira, 25 de julho de 2012


Poeira ao Vento

Todos somos poeira ao vento          

Fecha os olhos apenas um momento

E o momento se foi

E a poeira irá igualmente

Não esperes

Não desperdices nem um minuto

Abre os olhos

E o minuto se foi

Todo o teu dinheiro não comprará

Nem mais um minuto

Minuto interminável quando esperas

Veloz quando o vives

Num minuto o mundo pode acabar

Um minuto mal parado e és logo multado

Um minuto de amor e sentes o ardor

Um minuto de atraso e és um acaso

Um minuto a chuva e sentes-te uma luva

Um minuto e vais de garanhão á desilusão

Um minuto e sabes se amas ou odeias

Todos somos poeiras

Hajam odisseias.



Bendita dor

Cruz que carregas, dor que suportas

Achando que se fecharam as portas

Em segredo, cortante, latejante

É a tua melhor amante

Sentes, gritas silenciosamente

Dás por ti benevolente

Espera terminar, amenizar

Chacina a maldita

Olhas, e afinal é bendita

Braços, pernas

Escuta o Mecenas

Sobe degraus arduamente

Ao teu lado, um deficiente

Que nada sente

Como amas essa dor agora?

Sentes-te pó

Sentes-te pólvora, noutrora

Venera sem medida a dor

Dá-te tanto…

                                                                                         Julho de 2011




                                               Uma dor invisível!



Nada sentia a não ser uma coisa no corpo. Não um incómodo, uma dor, uma comichão, um peso, um aperto, uma picada. Estava sentada no puff de revista aberta nas pernas e nisto, sem contar, aquela dor nas pernas. Desta vez! Palpou-a, esfregou-a, tentou avaliá-la mas era difícil porque não era cá fora, lá dentro. Na fé que se desvaneceria, levantou-se, deu uns passos à sorte pela sala, ligou a tv, escutou com atenção, bebeu água quando esses passos ao acaso a conduziram à cozinha. Parou, a ver se a coisa desaparecia, mas teimosa persistia. Na casa de banho, no meio de tanta oferta na farmácia ambulante encontrara uma pomada para o reumático. Já a sua avozinha dizia beldades da mesma, como se de uma bênção se tratasse. Se fizera bem a ela, porque não faria à neta? Pensava ela, crente e de absoluta certeza. Sentou-se no sofá outra vez, num gesto vai e bem espalhava com convicção aquela dor, aquela que não se via mas sentia-se de forma acutilante e inequívoca. Inclinou-se para trás e não saía. Torceu-se para a direita e para a esquerda e nada. Ir ao hospital, tomar analgésico, telefonar a uma amiga… (Ir ao hospital?) Que diria na triagem? A dor que dói mas não se vê, nem consegue definir de tão abstracta e abrangente que é. Afigurou-se-lhe o ridículo, não teve coragem. Na esperança de que confortaria reclinou-se no cadeirão, aliás desconfortável, esperou um quarto de hora contado pelo relógio, cada vez mais aflita, resolvendo: “Não vou pensar mais nisto!” Claro que não deixou de pensar nisso, que ao fim e ao cabo permanecia inalterável. Encolheu as pernas novamente, e a coisa sempre tenaz, tranquila, presente. A que horas acabaria aquela coisa? Mais umas horas e acabara-se o tormento, adormecera mesmo com a dor a que se habituara.





Fugia desesperadamente dos maus tratos, da violência física e emocional. Procurava incessantemente o amor, a tranquilidade que sabia encontrava-se algures num local distante mas atingível. Queria ser amada, mas amava de forma errada, amava sem olhar como, nem a quem. Na esperança talvez de assim ser retribuída com certeza, procurava independência, paz, e algo mais não sei bem o quê. Deixei tudo para trás, sabia-o, era uma nova etapa de coisas novas e de total controlo sobre as mesmas, pensava-o. Parti sem dúvidas nem temores com somente a roupa do corpo e na bolsa muita fé e esperança de uma vida melhor. Atirei-me à vida, do corpo me saía o suor do trabalho. Era o começo. Desse suor poucos frutos surgiram. Era um correr em falso, um pedalar sem sair do sítio. Mas do fundo do meu vulcão interior a força vencia toda a injustiça social e variadas contrariedades. Afinal de contas, não era assim tão desconhecido para mim esta situação. Uma casinha pequena e humilde, eu, e o que viria a ser o pesadelo, o carimbo do mal. Alberguei o demónio de braços abertos. Arrisco dizer que a imposição do modelo de vida a dois era o do poder absoluto, marca o ponto inaugural de uma relação violenta. Hoje penso, e não foi por falta de aviso, foi sim por uma cegueira consciente. Os amigos falavam abertamente acerca da personalidade e do quão conflituoso ele era enquanto pessoa. Mas eu queria ser amada, que importa isso? Eu sou capaz de o mudar, pensava eu com firmeza e totalmente convicta disso. Porém, queria dar uma nova oportunidade ao amor. No entanto, tinha vícios que eu jamais gostei, saía muito à noite, faltava frequentemente ao trabalho sem justificação plausível. Não havia estudado, nem tencionava voltar a fazê-lo. Tinha como profissão serralheiro, e muito pouca apetência para tal. Três anos de idade nos separavam, eu com 16 e ele 19. De início fora sempre meigo, atento, preocupado e até politicamente correcto. Já vivíamos juntos quando achei altura indicada para lhe exigir determinadas mudanças. Exigi que corrigisse a sua postura, pois ainda enquanto namorados deixei bem claro que não era miúda de noitadas, de loucuras excêntricas. Era divertida extrovertida mas nunca louca ou inconsequente. Viria a sê-lo anos mais tarde, sendo um rapaz mimado, sem regras nem responsabilidades. Para eu não perder o grande amor da vida possivelmente (achava-o eu) dei lhe vezes sem conta o benefício da dúvida desculpando até demasiadas vezes as atitudes e comportamentos irracionais. Afinal de contas, havia os seus momentos bons.

  Certo dia fim-de-semana, uma sexta-feira mais concretamente, saímos juntamente com outro casal amigo. Na verdade amigos dele, para mim, não eram mais do que desconhecidos. Após a saída do bar resolvemos ir conviver junto à praia. Brincadeira para aqui, brincadeira para ali, o amigo dele decidiu pegar em mim no colo sem me dar tempo de reacção contraditória. Fora de facto uma atitude fora do contexto. Nada que me levasse a pensar que teria consequências tão dramáticas, como teve. Assim que chegamos a casa, a primeira coisa que senti ao entrar na porta foi um estalo de tal ordem que ao início nem doeu, só ardia de quente. Depois sim, doía! Sem me ser dada a possibilidade de retorquir ou recriminar, levei um pontapé, como quem pontapeia uma bola sem dó nem piedade. De seguida, as perguntas que me fizera esclareceram qualquer tipo de dúvida que restasse no meu consciente. Na perspectiva cega de raiva, partiu do princípio que eu mesma causei o comportamento por parte do colega, e pior, terei gostado. Daqui para a frente, é sempre a piorar.. e assim foi! Tantas foram as vezes que pensei: “Um dia terei de escolher, ou morro eu, ou tu”!

Que Deus? Esse todo poderoso que nos criou à sua imagem mas não podemos ser invisíveis como ele. Que nos destina e nos pede penitencia por todo “bem” que nos proporciona?

É do senso comum que um dos temas de controvérsia, de difícil discussão e de nenhuma conclusão é a religião. Assim são as coisas abstractas e fruto da criatividade duma sociedade milenar que se tem a imensa sede de justificar tudo o que acontece neste seu percurso pela terra. Arriscaria dizer que somos demasiado racionais.. e ignorantes o suficiente para querer perceber tudo. Desta forma é uma ferramente deliciosa para que os ambiciosos sem medida se aproveitem da mesma para lucrar à custa da fraqueza alheia a nível emocional, mental e cultural. Acolhem em seu próprio beneficio a luxúria conseguida pela crença desmedida dos fieis que julgam comprar o céu com dinheiro, rezas e artimanhas da feitiçaria. Sim.. porque inevitavelmente esta actividade esta inter ligada a igreja e afins. Correm o mundo, pentenciam-se, rezam perdidamente na esperança de que as suas preces sejam ouvidas por esse ser imponente que niguem sabe quem é.sempre assim foi e sempre asssim será. Pior que sermos enganados por terceiros é fazermos questão de nos iludirmos , desacreditando toda a lucidez que nos leva constantemente a exagerar no sentido da existência de um “bem” e de um “mal”. O bem e o mal existe porque nos existimos, logo, faz parte de nós e é da nossa obrigação aceita-lo, ate porque reflectindo, em nada que nos rodeia existe a perfeição. A perfeição fomos todos nos que a desenhamos para julgar toda e qualquer atitude humana.

                                                     A  tal coisa natural



Se nos falece o marido, somos viúvas. Se perdemos um filho, somos o quê?

Que nome se dá a um pai, a uma mãe que perde um filho?

Não existe, porque não é natural os filhos partirem antes dos pais! É extremamente cruel um filho perder para o além, um pai ou uma mãe. Mais muito mais cruel ainda é um pai, uma mãe ver o seu fruto partir, na grande parte das vezes, de forma estúpida e desumana. A lei da vida, ou da sociedade, para ser mais concreta, direcciona a morte pela ordem de idade e de gerações. Esta mesma sociedade, que ignora os velhos e critica os jovens, rotulando até, como geração rasca.

Nascemos, crescemos, vivemos, e morremos! Nada mais certo e verdadeiro. Todos apregoamos que é a coisa mais natural da vida, faz parte, é mesmo assim! Então porque é que assim sendo, morremos por dentro quando a vida “normal” nos tira alguém sem avisar, sem pedir, sem piedade? Quem morre por dentro, não estava preparado para a morte, aliás, ninguém está! Quando o desaparecimento é repentino a dor é ainda maior, não te dá tempo para a despedida, para a adaptação à nova realidade. Todos dizem que não querem sofrer nem fazer ninguém sofrer, e que então desejam uma morte rápida e serena. Pois digo-vos, é de muito egoísmo desejar algo assim. Confesso, desejo uma morte que me de tempo para me despedir, para pedir desculpa a quem devo, para lembrar que amo a quem amo, e assim partir tranquila, pois nada ficou por dizer e fazer. Assim como, desta forma, quem me rodeia terá tempo para viver a morte que se aproxima. Falo naturalmente da morte, mas tenho um medo de morte dela. Não quero morrer! Não quero! Mas sei que, nem a tecnologia mais avançada, nem a medicina mais descoberta, me safará de tal destino. Tento não pensar muito nela, entretanto ela relembra-me todos os dias que certo dia, virá.

Nada me prende a este mundo. Família, pais, amigos, e conhecidos. Nenhum destes me faz ansiar pela vida. Só necessito de um, somente um para me agarrar a vida. O meu filho, o meu fruto, o meu contributo enquanto humana e mulher. Ninguém precisa mais de mim do que ele! Por ele recuso-me a partir, quero ver, viver, reviver, tudo que é dele. Por vezes tento dar o meu melhor a ele, mas não tenho sucesso, por vezes consigo o que quero mas não o que preciso. Quando se perde algo e não se pode repor, as lágrimas cansam-me mas não consigo dormir. Luzes me guiarão pelo caminho da fixação. O que está para a frente só nós sabemos mas não vemos. Serei um dia uma estrelinha que brilhará para ele, brilhará iluminando o caminho e guiando o seu destino. Olharei sempre por ti! Se aquela força maior de que todos falam mas ninguém viu te levar de mim, leva uma parte de mim para que sintas sempre a presença da mãe! Amo-te mais que tudo filho… ! Quando leres isto, provavelmente já cá não estarei… olhar-te-ei lá do alto!



                           Falar sem dizer nada

Para aquelas pessoas que não entendem a Fibromialgia. Eu não sou tão afortunada quanto tu. Tenho a predisposição de sofrer duma síndrome com dor crónica, fadiga e problemas cognitivos. Foi-me diagnosticada depois de anos de problemas físicos e emocionais. Sei que não conheces a realidade do meu sofrimento, chamas-me de preguiçosa, acusas-me de simular estar doente para não trabalhar. É simplesmente ridículo! Deixas-me só. Se tens tempo para ler isto, quero ajudar-te a entender o quão diferentes somos tu e eu. A minha dor não é igual à tua dor, não posso trabalhar da mesma forma que tu, pois o meu corpo se esgota muito mais facilmente e o meu cérebro é incapaz de se concentrar. Não é uma dor que se manifesta só numa parte do corpo. Não é causada por nenhuma inflamação e tomar comprimidos para as dores nem sempre ajuda devido aos seus fortes efeitos secundários. A minha dor é provocada por sinais que o meu cérebro envia de forma errada devido a um problema do sistema nervoso central. Não é compreendida, mas é real! Tão real quanto eu estar aqui a falar contigo e ao mesmo tempo existir a possibilidade de pontadas de dor percorrer os meus membros e ainda assim te dirigir um sorriso, desacreditando assim a minha teoria.

Fadiga!

Não estou só cansada, estou exausta.

Eu quero ter uma actividade física e mental normal, porém não posso. Por favor, não tomes como algo pessoal.

Sem saber falo contigo mas não respondo às tuas chamadas, entende, não é porque não queira. Estou a pagar o preço por forçar demasiado e o meu cérebro, para além da sua capacidade.

Problemas cognitivos.

Talvez não me recorde do teu nome, mas recordo sempre o teu rosto. Talvez não me lembre do que prometi ontem fazer por ti. Não te zangues se não me recordo do teu aniversário, dos nossos planos, se às vezes não te escuto. Minha mente está esgotada e não tem a ver com a idade, nem tenho Alzheimer. Esta falta de memória está relacionada com distúrbios do sono. Minha falta de jeito.

Se piso os teus pés, tropeço nas tuas coisas, se me caem das mãos. Se estás atrás de mim numa escada e eu não me despacho, por favor, tem paciência, não tenho controlo sobre os meus músculos.

Minha sensibilidade.

Posso não conseguir estar muito tempo no mesmo sítio. Incomoda-me a luz, o ruído, os odores, a multidão.

Minha intolerância.

Não aguento muito calor, a humidade, tão pouco o frio. O meu termóstato interno não funciona.

            Minha depressão.

Há dias em que só me apetece ficar na cama e morrer. A dor severa causa depressão.

O mal-estar contínuo, provoca o isolamento e um retraimento social. Quando te abandonam por não te compreenderem numa situação assim, descobres quem afinal, te importa de verdade. Dás-te conta que tens menos pessoas do que aquelas que pensavas. Pessoas com fibromialgia se suicidassem por não aguentar mais o sofrimento. Mas tu podes salvar-me do abismo.

 O meu stress.

Se tenho de deixar as minhas tarefas e delegar as minhas responsabilidades não é por preguiça. Se necessito de constante tranquilidade e não estar submetida a nenhuma situação tensa e agoniante, não é por comodidade.

O stress é constante pode piorar os sintomas e incapacitar-me.

Meus pés, minhas mãos.

O inchaço que me faz deixar cair as coisas.

Meus dias bons.

Se me vês sorrir, não assumas que estou bem. Não me julgues.