quinta-feira, 4 de outubro de 2012

"Uma dor invisível"

Nada sentia a não ser uma coisa no corpo. Não um incómodo, uma dor, uma comichão, um peso, um aperto, uma picada. Estava sentada no puff de revista aberta nas pernas e nisto, sem contar, aquela dor nas pernas. Desta vez! Palpou-a, esfregou-a, tentou avaliá-la mas era difícil porque não era cá fora, lá dentro. Na fé que se desvaneceria, levantou-se, deu uns passos à sorte pela ...
sala, ligou a TV, escutou com atenção, bebeu água quando esses passos ao acaso a conduziram à cozinha. Parou, a ver se a coisa desaparecia, mas teimosa persistia. Na casa de banho, no meio de tanta oferta nafarmácia ambulante encontrara uma pomada para o reumático. Já a sua avozinha dizia beldades da mesma, como se de uma bênção se tratasse. Se fizera bem a ela, porque não faria à neta? Pensava ela, crente e de absoluta certeza. Sentou-se no sofá outra vez, num gesto vai e bem espalhava com convicção aquela dor, aquela que não se via mas sentia-se de forma acutilante e inequívoca. Inclinou-se para trás e não saía. Torceu-se para a direita e para a esquerda e nada. Ir ao hospital, tomar analgésico, telefonar a uma amiga… (Ir ao hospital?) Que diria na triagem? A dor que dói mas não se vê, nem consegue definir de tão abstracta e abrangente que é. Afigurou-se-lhe o ridículo, não teve coragem. Na esperança de que confortaria reclinou-se no cadeirão, aliás desconfortável, esperou um quarto de hora contado pelo relógio, cada vez mais aflita, resolvendo: “Não vou pensar mais nisto!” Claro que não deixou de pensar nisso, que ao fim e ao cabo permanecia inalterável. Encolheu as pernas novamente, e a coisa sempre tenaz, tranquila, presente. A que horas acabaria aquela coisa? Mais umas horas e acabara-se o tormento, adormecera mesmo com a dor a que se habituara.


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